19 de jul. de 2006

Expressão, liberdade e modernidade: Blogs!

Há tantas páginas pessoais por aí, em qualquer canto, e tanta gente se manifesta sobre tantas coisas, de várias formas, com intenções diversas... tudo resultado não só do famoso avanço tecnológico, que muitos vivem citando, mas de algo muito mais antigo: da vulgarização do pensamento, da idéia da liberdade (incondicional e irrestrita) de expressão. Quantos podem ver isso ainda? E quantos podem ver e suportar?

O problema é que, agora, todos se acham no direito de opinar sobre qualquer coisa, tenha preparo ou não para isso, sendo a própria opinião pessoal ou apenas um reflexo em fluxo ou contrafluxo do pensamento circundante. E todos se acham certos, ou nem se dão conta do que fazem. Séculos atrás, o populacho não tinha ao menos direito à expressão sincera, também lhe faltava capacidade para criar ou julgar valores (hoje ainda falta!). Em décadas passadas, mesmo podendo se expressar em limites, não havia como se expressar, os meios de circulação de informação eram muito formais, rígidos e caros: jornais, revistas, rádio, tv...

Percebem o que conseguimos hoje? Uma tecnologia barata, informal e de fácil acesso nos permite falar sobre o que quisermos sem custo elevado, de maneira fácil e com grande alcance. A principal limitação é mesmo a capacidade intelectual daqueles que utilizam tais veículos: a superficialidade, a infantilidade, mas, principalmente, a mentalidade restrita e pré-moldada, o "politicamente correto" visto mesmo em anarquistas. Enfim, muitas páginas esbanjam um adocicado líquido fungóide de inocência e leviandade, com um leve (nem sempre tão leve) ranso amargo que permeia tudo aquilo que é baixo e vulgar, comum, universal, globalizado.

Acreditando ter o direito de dizer, quando ainda não sabe pensar, uma legião monstruosa ataca essa isca atraente de propagação: nossa tecnologia. Não sabem seus componentes que o direito de expressão se conquista, não se ganha? Não com a conquista doce do povo, que como na Revolução Francesa, ou contra ditaduras locais, pensa ter conquistado o direito de dizer o que quer, quando apenas imitam, simulam aqueles que realmente podem fazê-lo: os poderosos donos e senhores de sí mesmo, também dos outros; os raros que conseguem encarar os próprios demônios e os demônios do mundo; aqueles que podem, querem, conseguem julgar e, além disso, criar valores... De nada serve um direito tão especial quanto o de expressão se le for dado, roubado, simulado: seus frutos: apenas ecos confusos, por vezes contrastantes, da universal consciência de rebanho que a muitos, quase todos, domina.

Sendo otimista: enfim, pode tal direito falso, dado, simulado, provocar nas almas raras e seletas, além de nojo e asco, um estímulo maior que lhes faça falar, julgar e criar? Melhor ainda, pode tal direito imaginativo acabar stimulando o nascimento dessas almas raras, quando a almas comuns é dado a oportunidade da expressão, ao gerar a angústia de ser mais uma gota no oceano? Por vezes sim... mas apenas por vezes? Não que eu goste, mas, caso isso fosse possível, os últimos dois séculos teriam sido diferentes...

"Mas que quer você, com esse ar contundente, arrogante, que se diz dono absoluto da verdade, aliás, conhecedor de verdades superiores, ao dizer tais palavras? Também você não seria mais um, não seria a você também dado esse direito simulado de se expressar? Afinal, qual sua intenção?" poderiam perguntar meus leitores... Coloquei palavras em suas bocas, mas se me vêem como dono da verdade, releiam, não me propús a isso, aliás, cada um deve ser dono da própria verdade, ou seria ela, a verdade, também universal (leia-se: comum, vulgar)? Ah, e, no fundo, eu usurpei a dádiva do direito simulado de expressão, ao pensar e refletir o que penso, para então dizer... enfim, não há ecos aqui, não ecos de mercado ou pasto, nada que se pretenda universal, nada que se dirija a todos, nada que corrobore com os últimos séculos pelos quais... bem, pelos quais a humanidade "avançou".

Afinal, que quero eu? Quero, que ao ler o que escrevo, o leitor ponha-se a pensar, refletir, até ter juízo formado e poder me rebater, apoiar ou ignorar. Quero que, caso não seja capaz de pensar por sí, caso sua mente seja uma concha em ressonância com o grande mar comum, fique revoltado com o que lê, ou despreze, se for capaz!