13 de ago. de 2006

Vulgaridade.

Há uma idéia que toma lugar comum na atualidade, mas, que na história geral da humanidade possui primazia recente, apenas. Muito tempo se passou até que essa idéia pudesse alcançar o posto elevado de valor, do qual goza hoje. Contra ela, houve muito esforço contrário, mas, nos últimos três ou quatro séculos ela é a idéia dominante no ocidente; notadamente no último século ela ancançou e seduziu mesmo o longínquo e, até então inatingível, oriente. Não seria de assustar se todos a conhecessem, pois essa idéia, que hoje toma lugar comum em qualquer parte, é justamente a idéia de "comum", "geral", "qualquer parte", em outras palavras, universal ou católico, como quiseram os romanos quando adoeceram.


Pois, hoje, quem pode ver a antiga linha de pensamento que via justamente na oposição dessa idéia o verdadeiro primor? Quem pode ainda ver o longo percurso, repleto de meandros e revezes, pelo qual a idéia do "universal/geral/comum" passou e através do qual ascendeu como, por vezes, princípio mesmo e talvez medida absoluta do valor em sí, tal qual quis Kant e como quer hoje a ciência, ou melhor, o cientificismo? Aos que podem ver tais coisas, aos que tem olhos para isso, convido a uma leve, muito leve, levíssima conversa sobre aquilo que já conhece. Aos que justamente aqui falta visão, respirem fundo, pois, se não posso abrir os olhos alheios, posso levá-los a lugares onde todo o odor dessa história será reproduzido... adianto: o odor não é propriamente agradável, embora estejam acostumados a lamber o fluído sórdido de tal história.

Afinal, de que eu falo? Paredes devem ser derrubadas... já faço isso, mas... bem, a marreta se ergue, vejam, pois, o alvo: há um equívoco estúpido e enorme, nascido da revolta e do desejo mesquinho, o equívoco de que as coisas e as pessoas têm o mesmo valor, o mesmo potencial, os mesmos direitos, de que há leis que tudo e todos devem seguir ou simplesmente seguem. Tal equívoco é tão extremo que chega mesmo a atribuir a tal suposição valor muito elevado, senão máximo. Repito, com palavras diversas, mil vezes, se necessário: a idéia de que existe uma igualdade entre coisas ou pessoas, de que existam direitos comuns, conceitos universais é propriamente um equívoco perverso, nocivo e mentiroso, ainda mais quando atribui a tais construções fantasiosas, os tais direitos gerais, leis universais, o preceito da igualdade, valor superior ao princípio de distinção e exceção.

Entenda-se que houve épocas e lugares em que, felizmente, o princípio radicalmente oposto foi louvado com precisão e lealdade, sinceridade. Mas, antes disso, vejo que um golpe apenas não basta... ergo novamente a marreta, mas o alvo já é conhecido: isso, a idéia de comum, universal, geral, é a definição mesma de vulgar, portanto, segundo a ótica hierárquica baixo e desprezível. Propriamente, além de claramente as coisas não serem iguais, muito menos as pessoas, nem há leis ou conceitos que possam, igualmente, reger todas as coisas ou pessoas, ou mesmo um número suficientemente grande. Mas, se tal engano existe, é porque há quem queira, quem deseje tal idéia como motor da realidade. Quem quer tal fantasmagoria e por qual motivo? Adianto: justamente quem mais precisa dela: o povo baixo, simples, reles, vulgar e generalizado; também todos aqueles que se contaminaram depois de séculos de contato com tal classe de "gente", também os líderes de rebanho, que apenas a esse acha subsídio para seu ser, apoio para a própria existência.

Para que se veja o contraste, diante de tal cor escura, joguemos uma tocha e, com a ardente luz da chama, surge o passado pétreo e selvagem, sublime, daquilo que é humano e não bovino, como se vê ultimamente: é justamente na distinção e na diferenciação que se acham o real valor criado e acionado da existência. Apenas a seres raros e diferentes é dado o poder e a glória, a honra, para a vida e seus frutos amargos ou doces. Diante de tal impulso genuíno e impensado, por isso mesmo correto e verdadeiro (no sentido de "não mentira") há toda uma complexa cadeia de divisões, comparações, hierarquias, diferenciações, classificações, nos quais objetos, ações, pensamentos e homens são avaliados, sem jamais haver idéia geral ou de forma que se aplique a tudo em qualquer momento, muito menos a todos. Propriamente na gênese do direito este existia apenas para limitar a força do semelhante e evitar desperdício de sangue, contra ou em relação a qualquer categoria diferente ou inferior não havia regra, não havia direito.

Com base no medo, tais seres criaram para sí e para os outros uma ampla norma de distinção e disciplina, se fosse o caso, havendo assim valores, leis, ideais e regras diferentes para situações diferentes e pessoas diferentes. Um ser como esse, que buscava a sí proprio e desconfiava do externo e do outro, que estabelecia para sí próprio, com base em sua capacidade íntima, o valor de todas as outras coisas, fatos, ações e pessoas, tal ser jamais aceitaria indiscriminadamente um pesar, ponderar de algo externo, ou se sujeitaria a algo comum, universal. Um ser assim é um ser único, diferente, sobre ele não há nenhuma lei que não seja a exceção. Tal ser desconfiaria de seu julgamento único se outro compartilhasse com ele tal julgamento. Tal ser jamais abriria mão de seus deveres e direitos únicos e auto-impostos. Tal ser pode ser chamado humano.

Entretanto a ordem de seres que, abaixo daqueles, existiam de maneira condicionada e restrita, como meros meios de ascenção e nutrição aos ímpares, via-se como uma unidade composta de seres aproximadamente indistintos, pois sobre eles era o valor dos ímpares, um valor a eles externo, que determinava seu ser, de maneira bem geral, repetida, indiscriminada. Em comunhão possuiam a desventura e infelicidade da própria existência, e necessitavam de algo superior e externo a eles, necessitavam de regras que a todos se aplicassem, leis gerais, costumes gerais, validade atemporal e universal (o princípio da física), sobretudo da igualdade. Ansiavam todos por liberdade. Tais seres não dispunham de discernimento para julgar, liberdade ou capacidade intelectual para tanto. Tais seres não possuem orgulho ou vontade ímpares, apenas refletem ecos da tendência mútua e simultânea. Tais seres não possuem uma ou duas características especiais, mas um conjunto amplo de habilidades e vantagens medianas. Tais seres, vistos hoje em qualquer canto, por vezes no próprio espelho, podem ser chamados de bovinos.

Inegavelmente um corpo amorfo e unido, resistente e persistente pode, ao longo dos séculos, destruir e corromper um conjunto pouco ordenado de seres ímpares, que guerreavam entre sí, cuja frágil existência equilibrava-se dificilmente diante de sua complexidade... tal fato levou à vitória do boi sobre o homem, como vê-se agora.

Fica para depois as conseqüências da vulgaridade, mas, parafraseando aquele nobre corrompido pelo inquisidor: a voz foi tomada dos melhores para ser dada ao populacho ignóbil... e chamam a isso de progresso e civilização.

3 de ago. de 2006

Considerações

Pretendo usar espaços designados "considerações" para comentar aquilo que comentarem sobre os "tópicos" e também para dizer que, embora o público dessa página se restringe à umas quatro ou cinco pessoas, ela não está abandonada.

O próximo assunto seria uma consideração inicial (pois pretende ser uma série) sobre democracia, mas, em conversas pessoais, aqueles que leram a primeira postagem deixaram de compreender algo essencial para o assunto seguinte. Não que eu pretenda ser didático, mas resolvi explicar-me melhor. Pois bem, a próxima postagem (que será feita dentro de uns sete dias) tratará de uma condição meio proibida, certamente polêmica, na qual se encontra a humanidade há uns vinte e cinco séculos ou mais.

19 de jul. de 2006

Expressão, liberdade e modernidade: Blogs!

Há tantas páginas pessoais por aí, em qualquer canto, e tanta gente se manifesta sobre tantas coisas, de várias formas, com intenções diversas... tudo resultado não só do famoso avanço tecnológico, que muitos vivem citando, mas de algo muito mais antigo: da vulgarização do pensamento, da idéia da liberdade (incondicional e irrestrita) de expressão. Quantos podem ver isso ainda? E quantos podem ver e suportar?

O problema é que, agora, todos se acham no direito de opinar sobre qualquer coisa, tenha preparo ou não para isso, sendo a própria opinião pessoal ou apenas um reflexo em fluxo ou contrafluxo do pensamento circundante. E todos se acham certos, ou nem se dão conta do que fazem. Séculos atrás, o populacho não tinha ao menos direito à expressão sincera, também lhe faltava capacidade para criar ou julgar valores (hoje ainda falta!). Em décadas passadas, mesmo podendo se expressar em limites, não havia como se expressar, os meios de circulação de informação eram muito formais, rígidos e caros: jornais, revistas, rádio, tv...

Percebem o que conseguimos hoje? Uma tecnologia barata, informal e de fácil acesso nos permite falar sobre o que quisermos sem custo elevado, de maneira fácil e com grande alcance. A principal limitação é mesmo a capacidade intelectual daqueles que utilizam tais veículos: a superficialidade, a infantilidade, mas, principalmente, a mentalidade restrita e pré-moldada, o "politicamente correto" visto mesmo em anarquistas. Enfim, muitas páginas esbanjam um adocicado líquido fungóide de inocência e leviandade, com um leve (nem sempre tão leve) ranso amargo que permeia tudo aquilo que é baixo e vulgar, comum, universal, globalizado.

Acreditando ter o direito de dizer, quando ainda não sabe pensar, uma legião monstruosa ataca essa isca atraente de propagação: nossa tecnologia. Não sabem seus componentes que o direito de expressão se conquista, não se ganha? Não com a conquista doce do povo, que como na Revolução Francesa, ou contra ditaduras locais, pensa ter conquistado o direito de dizer o que quer, quando apenas imitam, simulam aqueles que realmente podem fazê-lo: os poderosos donos e senhores de sí mesmo, também dos outros; os raros que conseguem encarar os próprios demônios e os demônios do mundo; aqueles que podem, querem, conseguem julgar e, além disso, criar valores... De nada serve um direito tão especial quanto o de expressão se le for dado, roubado, simulado: seus frutos: apenas ecos confusos, por vezes contrastantes, da universal consciência de rebanho que a muitos, quase todos, domina.

Sendo otimista: enfim, pode tal direito falso, dado, simulado, provocar nas almas raras e seletas, além de nojo e asco, um estímulo maior que lhes faça falar, julgar e criar? Melhor ainda, pode tal direito imaginativo acabar stimulando o nascimento dessas almas raras, quando a almas comuns é dado a oportunidade da expressão, ao gerar a angústia de ser mais uma gota no oceano? Por vezes sim... mas apenas por vezes? Não que eu goste, mas, caso isso fosse possível, os últimos dois séculos teriam sido diferentes...

"Mas que quer você, com esse ar contundente, arrogante, que se diz dono absoluto da verdade, aliás, conhecedor de verdades superiores, ao dizer tais palavras? Também você não seria mais um, não seria a você também dado esse direito simulado de se expressar? Afinal, qual sua intenção?" poderiam perguntar meus leitores... Coloquei palavras em suas bocas, mas se me vêem como dono da verdade, releiam, não me propús a isso, aliás, cada um deve ser dono da própria verdade, ou seria ela, a verdade, também universal (leia-se: comum, vulgar)? Ah, e, no fundo, eu usurpei a dádiva do direito simulado de expressão, ao pensar e refletir o que penso, para então dizer... enfim, não há ecos aqui, não ecos de mercado ou pasto, nada que se pretenda universal, nada que se dirija a todos, nada que corrobore com os últimos séculos pelos quais... bem, pelos quais a humanidade "avançou".

Afinal, que quero eu? Quero, que ao ler o que escrevo, o leitor ponha-se a pensar, refletir, até ter juízo formado e poder me rebater, apoiar ou ignorar. Quero que, caso não seja capaz de pensar por sí, caso sua mente seja uma concha em ressonância com o grande mar comum, fique revoltado com o que lê, ou despreze, se for capaz!